domingo, janeiro 22, 2006

"Acerca do morder a língua"


“Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; senão, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio.
Boas ocasiões para ficar calado nunca faltaram, mas também acontece que o senhor Palomar lamente não ter dito alguma coisa que teria podido dizer no momento oportuno.
(...)
Mais controverso é o juízo que faz sobre o não ter manifestado o seu pensamento. Em tempo de silêncio geral, o conformar-se com o calar da maioria é certamente uma culpa. Em tempos em que todos dizem demasiado, o importante não é tanto dizer a coisa certa, que de qualquer modo se perderia na enxurrada de palavras, quanto dizê-la partindo de premissas e implicando consequências que dêem à coisa dita o seu máximo valor. Mas então, se o valor de uma afirmação singular está na continuidade e coerência do discurso em que encontra lugar, a escolha possível é apenas entre o falar continuamente e o não falar nunca.
(...)
De facto, o silêncio também pode ser considerado um discurso, enquanto recusa do uso que outros fazem da palavra; mas o sentido deste silêncio-discurso está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de vez em quando se diz e que dá sentido àquilo que se cala.
Ou antes: um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião. Assim como uma palavra dita agora pode fazer poupar cem, amanhã, ou, então, obrigar a dizer outras mil. “De cada vez que mordo a língua – conclui mentalmente Palomar – tenho que pensar não só naquilo que estou para dizer ou não dizer, mas também em tudo aquilo que se eu digo ou não digo será dito ou não dito por mim ou pelos outros”. Tendo formulado este pensamento, o senhor Palomar morde a língua e permanece em silêncio.”

In Palomar, Italo Calvino

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

o silêncio. às vezes, é tão bom. Cada vez o aprecio mais.

(Apesar de me esforçar, meninas! Esforço-me por ser sociável. Ou tenho tentado.)

segunda-feira, janeiro 30, 2006  

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